Eva Evangelista: a primeira juíza do Acre e a luta contra a violência doméstica e familiar

Reconhecida como a primeira mulher a receber a investidura de juíza no Acre, Eva Evangelista não é daquelas que se deixam dominar pelo ambiente, que aceitam o lugar de vítima, mas também não nega a realidade. Afirmando que hoje conta com colegas respeitosos, Eva admite já ter sofrido preconceito velado pelo fato de ser mulher, que já perdeu a vez de falar em palestras apenas por ser mulher, e que entende que a “cultura do machismo” está tão enraizada na cultura que algumas mulheres acabam tratando o fato como normal.

“Já sofri sim preconceito. Não adianta dizer que ele não existe, existe sim, embora seja de forma velada em algumas ocasiões. Logo no início (da carreira de magistrada) eu participava de reuniões onde quando chegava a minha vez de falar eles sempre cortavam e davam a vez para um homem, talvez por acreditar que a opinião dele fosse mais importante. Havia piadinhas também. Colegas estavam conversando, outros juízes, e quando eu chegava por ser mulher eles brincavam dizendo que era melhor pararem a conversa porque aquele assunto não era para criança. Sempre há uma forma de desmerecer as mulheres. Estou falando tudo isso por acreditar que a ‘cultura do machismo’ leva a essa onda de violência”, diz.

Em entrevista exclusiva à Folha do Acre, Eva Evangelista contou que assumiu a magistratura em junho de 1975, aos 25 anos de idade. “Assumi na Comarca de Sena Madureira, fui primeira mulher juíza no estado e o desembargo assumi em 1984. Não poderia dizer que não senti medo, foi um desafio grande”, diz.

Com 43 anos de magistratura, Eva já chegou ao posto mais alto do Tribunal de Justiça do Acre, quando presidiu a corte de 1978 a 1980.

Definitivamente, Eva Evangelista não é daquelas que escolhem o papel de vítima, embora reconheça que há preconceito contra as mulheres e que há violência de todas as formas. A forma que ela escolheu para vencer todo esse estigma de preconceito foi trabalhar arduamente no ofício que escolheu.

“Acho que algumas vezes eu deixei passar o preconceito, eu estava ocupada demais com meu trabalho. Eram muitos processos para audiências, sentenças. Posso dizer que que sempre obtive consideração e respeito doa comunidade de Sena Madureira e dos membros da Justiça também”, diz.

 

Eva Evangelista, a coordenadora estadual das mulheres em situação de violência doméstica e familiar

Em abril de 2017, Eva Evangelista assumiu uma nova missão da qual muito se orgulha. Ela foi designada pela presidente do Tribunal de Justiça, Denise Bonfim, para ser a coordenadora estadual das mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

“A coordenadoria que hoje titularizo pela nomeação da Denise, nossa presidente, é fonte de prazer renovado. Denise descobriu na minha pessoa a vocação para contribuir com o enfrentamento e combate à violência doméstica. Tenho apoio da administração do TJ, dos meus pares, das valorosas e dignas mulheres desembargadoras e juízas do meu estado e dos integrantes da Rede de Proteção”, diz.

Entre as atividades que estão sendo desenvolvidas por Eva Evangelista está a elaboração de sugestões para o aprimoramento da estrutura do Judiciário na área do combate e prevenção à violência doméstica e familiar contra as mulheres; suporte aos magistrados, aos servidores e às equipes multiprofissionais visando à melhoria da prestação jurisdicional e também articulação interna e externa do Poder Judiciário com outros órgãos governamentais e não-governamentais entre outras.

A coordenadora faz questão de ressaltar que ainda é grande a violência praticada contra as mulheres e que é preciso combater arduamente esse comportamenrto enraizado na socieadade. Eva diz que o único caminho para obter sucesso é quebrar o silêncio em torno do assunto.

Apesar dos números serem alarmantantes e a Vara de Proteção à Mulher de Rio Branco contar com cerca de 3,2 mil processos para serem julgados e a Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (DEAM) de Rio Branco contar com mais de 7 mil inquéritos policiais para serem analisados, Eva Evangelista defende a tese de que os números seriam bem mais que estes se essa espécie de violência não fosse silenciosa e se escondesse atrás da subnotificação.

“E a quantidade de violência que foram praticadas e que não podemos verificar que não chegaram aos registros? Essa violência ainda acontece de forma silênciosa, fazendo vítimas”, diz.

A desembargadora afirma que o caminho de combate à violência contra a mulher passa pela educação. “O caminho do combate passa pela educação, claro que a Justiça deverá tratar de acordo com os processos, julgar. No que diz respeito ao futuro nós devemos trabalhar com educação, prevenir e enfrentar”, diz.

Alem de ter seu trabalho reconhecido no enfrentamento à violência, Eva Evangelista também é reconhecida por sua contribuição com a difusão do conhecimento. No dia 28 de fevereiro a desembargadora Eva Evangelista foi homenageada durante Sessão Solene da Câmara Municipal de São Paulo, a qual lhe destinou diploma e medalha por sua contribuição à difusão do conhecimento. O Título Salva de Prata Pessoa Jurídica foi entregue ao Colégio Permanente de Diretores de Escolas Estaduais da Magistratura (Copedem).

A decana da Corte de Justiça Acreana foi membro-fundadora do colégio, tendo ocupado o cargo de diretora da então Escola Superior da Magistratura do Acre (Esmac) em várias ocasiões (1993-1995, 2003-2005, 2005-2007, 2009-2011, e 2011 a 2013).

Fonte: Folha do Acre

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