A igreja como única saída para criminosos deixarem as facções e o trabalho do pastor que ‘salva almas’ do crime

“Era eu ou era ele. Uma pena que o pastor não chegou antes para ele poder rasgar a camisa e ir para a bença”. Foi com essa frase e com um revólver em mãos, recém-utilizado, que um assassino de pouco mais de 18 anos recebeu o pastor Arnaldo Barros que subiu até o esconderijo para tentar salvar uma alma que queria “correr para cruz” para sair do submundo do crime e suas regras inflexíveis. O pastor chegou atrasado por meia hora e o futuro cristão, que passou a última hora de vida enviado mensagens desesperadas ao líder religioso, jazia no chão com 12 balas espalhadas pelo corpo.

“Ir para a bença”, “rasgar a camisa”, “correr para a cruz de Cristo”, “se converter”, “virar crente” é a única saída prevista nos estatutos das facções criminosas que preveem a possibilidade de um integrante se desligar do grupo criminoso. A decisão para aqueles que sonham em sair é só uma: a conversão através da mensagem religiosa da cruz ou enfrentar a dura espada do “tribunal do crime”. A decisão é irrevogável. Se o futuro crente não se firmar na igreja então encontrará paradeiro eterno em alguma cova rasa ou em um cemitério se der sorte de ter um enterro digno.

“O crime não admite que se brinque com Deus, com a palavra”, frisa um faccionado que se converteu há cerca de 5 meses.

Diante da ordem de não brincar com Deus, os faccionados têm que decidir entre a cruz ou os riscos do submundo do crime organizado, que inclui executar rivais ou irmãos de facções, assaltos, tráfico ou qualquer ordem dada pelos líderes, os chamados “conselheiros”.

“Lá não é bagunçado não. Tem ordem, tem quem manda, e é claro que é melhor obedecer, porque qualquer vacilo é cobrado e quem escolhe a forma que se paga pelo erro é o conselho. Se lhe derem uma ordem para matar então ou você mata ou você quem será executado”, diz.

Durante a última semana a equipe da Folha do Acre se debruçou em uma série de reportagens sobre os “convertidos” das facções e realizou uma entrevista com Arnaldo Barros e quatro das centenas de ex-criminosos que frequentam a sua igreja.

Com depoimentos chocontes de ex-membros do submundo do crime e do pastor, a Folha do Acre revela sob o ponto de vista dos entrevistados os bastidores da guerra entre as facções no estado.

Arnaldo é criador de um projeto denominado “Paz para o Acre” e busca através da conversão ao Evangelho a respectiva ressocialização dos ex-membros de facções.

“Ou se convertem ou morrem jovens antes de arrastarem com eles mais vidas”, diz Arnaldo Barros sobre a retirada de criminosos das facções

Arnaldo Barros trocou os bastidores da televisão onde funcionava como uma espécie de teleevangelista e abraçou uma parte não tão glamurosa na pregação do Evangelho: o evangelismo nas cadeias, a retirada de jovens de facções e discipulados de criminosos recém-convertidos à religião evangélica.

“Com o crime em guerra, acirramento pela disputa das rotas de tráfico de drogas, jovens criminosos buscam na igreja uma saída que não seja o cemitério. No “estatuto do crime”, há um artigo que autoriza que saíam se forem para a igreja. É a única saída. É a forma de salvar a vida de quem sai e evitar que ele continue no crime e mantando outras pessoas”, diz o pastor.

O pastor afirma que já foram mais de 500 jovens desligados das fações, e em todos os casos são gravados vídeos seguindo um roteiro pré-estabelecido onde o faccionado diz seu nome, vulgo (apelido) usado no submundo do crime, senha e artigo. Após gravado, o vídeo deve chegar até os líderes das facções, os chamados “conselheiros”.

“Pelo ‘estatuto do crime’ qualquer um pode abandonar o crime para ser membro de uma igreja, desde um líder, ‘conselheiro’, até o ‘soldado’ que executa as ordens. Não tem dia e nem hora para eu atender as pessoas. Tem gente que me liga no desespero na ânsia da morte dizendo que quer ‘rasgar a camisa’ e nós corremos para lá porque nem sempre há tempo”, diz.

Escravos das drogas e a luta para manter um centro de recuperação

Arnaldo Barros mantém uma chácara onde funciona um centro de reabilitação de dependentes químicos para onde vão 95% dos novos convertidos oriundos das facções.

“A grande maioria de quem está na ponta, cometendo os crimes, cumprindo as ordens, são viciados e quando saem da cadeia a gente já leva para o centro de recuperação. Lógico que depois deles terem sido desligados do mundo do crime, seguindo o estatuto próprios deles. Ou seja, o centro de recuperação entra depois deles terem acertado contas com a Justiça e se desligado das facções”, diz.

Para manter a chácara, que ainda está sendo paga, o pastor Arnaldo Barros recorre a doações.

“Comprei o lugar de forma parcelada. Dei uma entrada de R$ 20 mil e pagamos R$ 5 mil todos os meses, isso fora o que temos que gastar com alimentação e estadia deles. Todos os meses é uma luta e estamos sempre gravando vídeos pedindo que as pessoas se sensibilizem e doem. Pode ser qualquer quantia. Não é fácil manter um centro de recuperação”, diz o religioso.

O projeto de Arnaldo Barros começou há 7 anos com evangelismo dentro dos presídios, onde pregou para a maioria das lideranças dos “conselheiros” das facções. Atualmente o projeto “Paz para o Acre” inclui várias etapas e cada uma mais cara que a outra.

“O projeto é de retirar e sustentar nos primeiros tempos até que eles consigam algo para se sustentar. A maioria é rejeitada pelo mercado de trabalho e precisa pensar em uma profissão independente como técnico em eletrodomésticos, cabeleireiros, vendedor de salgado. Algo assim. Retirar e sustentar custa caro, tem dias que até colocar gasolina no carro é difícil. Outro dia me ligaram 1 hora da manhã para ir na Cidade do Povo e mal tinha o da gasolina, mas fui assim mesmo porque não poderia deixar uma vida se perder”, diz.

Com uma casa de recuperação funcionando sem apoio de governos e grandes empresas, Arnaldo Barros aplica os princípios religiosos de “dividir entre si e orar para multiplicar”. O religioso não cogita desistir da missão, para ele uma vida salva vale muito.

“Aqui é assim onde comer um come 10. Se tiver um bife a gente cerra o bicho no meio e se vira, se tiver só ovo, comeremos só ovo, mas o que um comer os outros comem”, diz.

Quando a casa de recuperação está lotada, Arnaldo Barros abre as portas de sua própria residência onde mora com a esposa e os filhos, incluindo um de 4 anos.

“Eu não tenho medo de recebê-los aqui. Faço o que for preciso para que tenham uma chance. Vou receber nos próximos dias aqui o Ricardo Rodrigues Uchoa, o “Popeye”, um dos presos mais antigos do Francisco de Oliveira Conde. Ele passou mais de 20 anos lá, não tem mais família e nem para onde ir. Estou atrás de uma rede para ele dormir por aqui mesmo”, diz apontando para a cozinha da casa.

Fonte: Folha do Acre

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